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Brasiliana Steampunk: A Lição de Anatomia do Temível Dr. Louison | Resenha

Uma inventiva e sedutora narrativa, com personagens apaixonantes

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(Brasiliana Steampunk – A Lição de Anatomia do Temível Dr. Louison; Autor: Enéias Tavares; editora LeYa – selo Fantasy – Casa da Palavra; 320 páginas; 2014)

Quando pensamos em livros de fantasia, o que nos vem a cabeça? Cavaleiros e dragões? Bruxos e fadas? Um herói improvável que descobre um destino grandioso? Vários elementos podem constituir a base de um volume do gênero fantástico, mas Brasiliana Steampunk – A Lição de Anatomia do Temível Dr. Louison certamente será diferente da grande maioria de tramas que lemos por aí. E isso, dentro de um gênero tão querido, mas tão repleto de tramas repetitivas, é maravilhoso.

Enéias Tavares “toma emprestado” alguns dos grandes personagens da literatura clássica brasileira para criar uma fantasia retrofuturista steampunk passada na Porto Alegre de 1911. Quem leu O Alienista (Machado de Assis) se deparará com Simão Bacamarte, de O Cortiço (Aluísio de Azevedo) saem Rita Baiana, Léonie e Pombinha. Já Solfieri vem de Noite na Taverna (Álvares de Azevedo), Sérgio e Bento Alves são retirados das páginas de O Ateneu (Raul Pompeia), Vitória Acauã sai de Contos Amazônicos (Inglês de Souza), Isaías de Recordações do Escrivão Isaías Caminha (Lima Barreto) e o Dr. Benignus foi encontrado no romance homônimo de Augusto Emílio Zaluar.

Todos estes se veem conectados a Antoine Louison, um renomado e inteligente médico que foi preso pelo assassinato de oito pessoas da alta sociedade Porto Alegrense, das quais retirou os órgãos com precisão cirúrgica. O idealista Isaías veio cobrir sua execução pela polícia local, já Simão Bacamarte, o terrível alienista defensor de ideias nazistas, é responsável pelo asilo São Pedro para Psicóticos e Histéricas, onde o criminoso está aprisionado. Rita, Léonie e Pombinha, as sedutoras proprietárias do Palacete dos Prazeres, acompanham o caso de longe. Já Vitória, Solfieri, Sérgio, Bento Alves e o Dr. Benignus, membros do misterioso Parthenon Místico, decidem intervir no destino de Louison.

Cuidoso com seu texto, Enéias Tavares nos entrega sua história aos poucos, narrada através de cartas, reproduções de gravações e noitários. A cada narração descobrimos coisas novas e pistas, seja sobre o passado dos personagens sejam pistas sobre suas atitudes. A linguagem utilizada no livro é um show a parte, pois o escritor brinca com a grafia usada no período, utilizando termos como photografia e phidelidade, “ignorando com isso recentes acordos ortográficos, tramoias de positivistas virulentos que desconsideraram nosso tesouro linguístico e nosso patrimônio estético, quando não nosso patrimônio ético”.

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Em meio a um bom número de co-protagonistas da história, duas me chamaram bastante a atenção, ambas negras. A primeira, Rita Baiana, o “assombro em forma de mulher”. Ingênua e simples, conhece seu incrível poder de sedução (capaz de cativar até mulheres), mas suas gravações são tão singelas e sinceras que conseguem nos encantar de uma forma que nem sua dança é capaz. A segunda, Beatriz de Almeida & Souza, por sua força a despeito de todos os infortúnios. E por se referir a ela uma das frases mais poderosas do livro: “A cor seria perdoável, o sexo nunca”.

Ao chegarmos ao final da narrativa, nos damos conta de que tudo passou muito rápido e que a história foi curta para tantos bons personagens. De fato, pela disposição dos capítulos e número de personagens, temos apenas uma pequena dose de cada um. Fica impossível não querer saber mais de Rita Baiana (“que nos faz esquecer os deveres”!), Pombinha, Solfieri, Vitória, Sergio e tantos outros. Felizmente, Enéias Tavares nos entrega que a continuação do livro virá, com outras tantas “venturas” deste grupo peculiar.

Fica claro o motivo do livro ter sido o vencedor do prêmio da Fantasy – Casa da Palavra para ser o novo lançamento do selo – é incomum e extremamente sedutor ao mesmo tempo, assim como seus personagens. Que venha mais Brasiliana Steampunk, nossa literatura merece!

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